Na primeira edição do Somos ABEPS de 2026, vamos conhecer a trajetória da associada Bernadete Lessa (@bernadete._lessa_). Psicóloga, ela é sócia-fundadora do Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro (IFEN), que, em 2026, completa 30 anos.
Ao compartilhar trajetórias, experiências profissionais e projetos desenvolvidos em diversas regiões do país, a ABEPS busca fortalecer vínculos internos e reconhecer o papel de cada associado na promoção do cuidado, da pesquisa e da prevenção do suicídio.
Filha de pai português e mãe brasileira, Bernadete nasceu no Rio de Janeiro (RJ), onde reside até hoje. “Apesar da falta de bronzeado, eu sou carioca e sempre vivi no Rio”, brinca.
As quatro filhas do casal aprenderam cedo o valor do esforço próprio, e um conselho paterno foi fundamental para as escolhas profissionais feitas por Bernadete: “trabalho é algo sagrado”. Depois de conhecer diferentes áreas da Psicologia, foi no Existencialismo que ela encontrou sua grande paixão profissional. Além de ministrar cursos e formações oferecidas pelo IFEN, Bernadete também atua como psicóloga clínica.
Confira a íntegra da entrevista.
Psicologia não era a sua primeira opção profissional?
Não. Quando criança, eu queria ser muita coisa! À medida que fui crescendo e pensando no que queria fazer, fiquei dividida entre duas áreas: Arquitetura, que sempre me fascinou, e Medicina.
Mas, na época de prestar vestibular, sofri um acidente bem sério, precisei de atendimento de emergência e fiquei muito decepcionada com o modo como a Medicina estava sendo praticada. Aquilo me desencantou, porque meu pai sempre dizia que “trabalho é algo sagrado” e, para mim, não fazia sentido me relacionar de forma fria e indiferente com as pessoas. Hoje entendo com mais clareza o que aconteceu, mas, na época, a situação me afetou profundamente. Então procurei o que mais poderia fazer e encontrei a Psicologia.
Em que momento você passou a estudar e trabalhar com prevenção do suicídio?
Na faculdade, tive um professor médico que falava sobre a temática do suicídio, e eu gostava muito de ouvi-lo. Li alguns livros, mas dentro de uma perspectiva mais médica.
Depois de um tempo, ocorreu um suicídio em uma empresa na qual eu trabalhava, e me deparei com o tema novamente em outras situações próximas. O suicídio foi aparecendo de diferentes formas, chamando minha atenção, mas eu ainda não estava diretamente envolvida.
Até que, em 2015, a Ana Maria Feijoo foi convidada para participar de um trabalho na UERJ sobre suicídio e me convidou para integrar a pesquisa. Então eu pensei: “Está na hora.” Tem sido um trabalho muito rico. Aprendi muito, não só sobre o fenômeno, mas também fui me dando conta e revendo muitas questões pessoais e práticas profissionais.
O Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro completa, em 2026, 30 anos de existência. Como surgiu a ideia de criar o Instituto?
O IFEN tem origem em um grupo de estudos criado por Ana Maria Feijoo. Eu estava no quinto período da faculdade, mas já queria me preparar melhor e insisti para que ela formasse um grupo de formação sob a perspectiva fenomenológico-existencial. Foi aquela história de “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Consegui convencê-la, e o grupo foi crescendo.
Nosso primeiro trabalho em conjunto foi a tradução de um dos livros do psicoterapeuta e psiquiatra existencial Irvin Yalom, intitulado Psicoterapia Existencial, realizada ao longo de 1996. Depois disso, saímos da formação inicial e estruturamos a especialização, com espaço para aulas, pesquisa e consultórios para atendimento.
Como é a atuação do IFEN hoje?
O IFEN oferece formação e especialização na perspectiva fenomenológico-existencial, incluindo especialização generalista e infantojuvenil, constantemente referida a Kierkegaard e temos projetos de oferecer outras em breve. Oferecemos formação para atuação de profissionais em situações relacionadas ao suicídio, tanto em prevenção quanto em posvenção.
Nossa tradição, nosso lema, é divulgar essa perspectiva fenomenológico-existencial, esse modo de atuar dentro da Psicologia clínica. Já formamos mais de 40 turmas de especialização e 8 turmas de formação em suicídio, e o retorno é muito positivo, pois muitas pessoas iniciam o curso acreditando que o suicídio está diretamente ligado a uma questão patológica. Ao longo da formação, conseguimos desconstruir essa ideia e trazer uma visão mais ampla e dinâmica. Também temos a Edições IFEN, editora especializada em Fenomenologia, Psicologia Existencial e suas práticas.
Estar associada e participar das atividades oferecidas pela ABEPS faz diferença na sua vida profissional?
Sem dúvida. Infelizmente, a formação em Psicologia não prepara o profissional para trabalhar com situações de suicídio, e isso faz com que ele se sinta inseguro diante dessa situação. Alguns acreditam que podem dizer: “Eu não trabalho com suicídio”, como se isentá-lo de se deparar com essa situação ao longo de sua vida profissional fosse realmente uma possibilidade.
Mas, se o suicídio é uma possibilidade humana, como posso me isentar de lidar com essa questão? Se um paciente começa a falar sobre ideação suicida, eu vou dizer: “Sobre esse assunto eu não trato, procure outro profissional”?
É necessário que o profissional tenha preparo e treinamento. Fazer parte da ABEPS é fundamental, porque é um espaço de troca e busca de conhecimento.
Qual avaliação você faz do trabalho da Associação nos últimos anos?
Fico muito feliz, porque sinto que a ABEPS cresceu, se apresentando mais viva e dinâmica. O Instituto de Psicologia Fenomenológico–Existencial do Rio de Janeiro (IFEN), inclusive, é uma instituição parceira da ABEPS, no intuito de fortalecer atuações conjuntas no estudo da prevenção ao suicídio.
Como você avalia a busca dos profissionais por conhecimento em suicidologia?
Hoje vemos um grupo muito qualificado trabalhando e divulgando seus estudos e práticas. Quando começamos a estudar o tema, não tínhamos muito material disponível; era preciso garimpar cada conteúdo. Hoje, o panorama é bem diferente: temos muitas pesquisas sendo desenvolvidas por todo o país e no mundo. Estamos colhendo os frutos que os pioneiros semearam.
Faço parte de alguns grupos que surgiram a partir do último Congresso da ABEPS e vejo como são ricos: as pessoas trocam experiências, pedem ajuda, oferecem orientação. Isso dá muito mais segurança para o profissional atuar.
Como está a expectativa para participar do VI Congresso Brasileiro de Prevenção do Suicídio, em agosto?
A expectativa é ter acesso às pesquisas que estão sendo desenvolvidas, além de reencontrar profissionais que trabalham com essa temática. É muito importante participar e acompanhar o que está sendo estudado sobre prevenção e posvenção do suicídio.
O Congresso da ABEPS é um espaço de encontro e de acesso a um conhecimento genuíno, de qualidade, que nos permite saber o que está sendo estudado no Brasil e no mundo. Estaremos lá, juntamente com outros profissionais da equipe do IFEN.
O Congresso é também um momento de ampliar conexões e reencontrar pessoas?
Fiquei muito feliz com o que experenciei no último Congresso: as pessoas que conheci, os trabalhos apresentados.
Encontrei ex-alunos que hoje trabalham com prevenção do suicídio nas Forças Armadas, no Corpo de Bombeiros e nas Polícias. É sempre gratificante encontrar um ex-aluno que hoje é também nosso parceiro de trabalho.
Você ouviu do seu pai que “trabalho é algo sagrado”. Como esse conselho influencia na sua atuação profissional?
Pensar nisso me emociona. O trabalho é parte fundamental da nossa vida e também nos constitui como pessoas. Meu pai sempre dizia: “A gente não pode se queixar de ter muito trabalho, porque isso é uma graça.”
Se tenho muito trabalho, significa que estou desenvolvendo meu ofício com dedicação, cuidado e compromisso. Então isso sempre foi muito caro para mim: não posso me queixar de ter muito trabalho. Isso é compromisso.
Entendo que ele dizia que o trabalho é sagrado porque é o que nos move, o que nos sustenta, o que nos leva à vida. É o que nos dá sustentação para criar nossos filhos, formar nossa família e atuar de maneira crítica, comprometida e séria na comunidade. É algo que levo profundamente para a minha vida.
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Assessoria de Comunicação da ABEPS



