Somos ABEPS – “Há outras vidas possíveis”: a reconstrução pessoal e seus reflexos no trabalho de Fernanda Luma

Nessa edição do Somos ABEPS vamos conhecer a história e o trabalho da associada Fernanda Luma (@fernandaluma_sm), de 39 anos, que transformou experiências dolorosas em compromisso com a escuta e prevenção do suicídio.

Nascida em Picos (PI), ela construiu sua trajetória profissional em diferentes estados brasileiros e, após mais de uma década marcada por um processo de reconstrução pessoal, decidiu retornar às suas origens. “Por vezes a gente precisa fazer o caminho de volta para se reencontrar”, resume.

Hoje, de volta ao Piauí — estado que figura entre os que apresentam as maiores taxas de suicídio no país —, Fernanda atua em diversas frentes voltadas à prevenção do suicídio. Coordenadora de ensino do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES) e idealizadora do projeto Sobre Suicídio, ela tem dedicado sua carreira a ampliar espaços de escuta, cuidado no território e formação profissional. “A temática não tem mais batido à porta; ela tem arrombado a porta dos serviços das mais diversas políticas públicas”, observa.

Na entrevista, Fernanda compartilha como sua própria vivência com o sofrimento psicossocial e uma tentativa de suicídio, há dez anos, transformaram sua forma de compreender a saúde mental e impulsionaram uma jornada que hoje une atuação profissional, pesquisa, escrita e mobilização social.

Ao compartilhar trajetórias, experiências profissionais e projetos desenvolvidos em diversas regiões do país, a ABEPS busca fortalecer vínculos internos e reconhecer o papel de cada associado na promoção do cuidado, da pesquisa e da prevenção do suicídio.

Confira a íntegra da entrevista:

Qual era o seu sonho profissional quando criança?

Lembro de uma época em que eu queria ser detetive. Eu gostava muito da literatura de Agatha Christie e de Sherlock Holmes. E acho interessante que essa curiosidade em desvendar alguma coisa se voltou para a curiosidade de desvendar o que está por trás do comportamento humano, no sofrimento e na história de vida de uma pessoa em sofrimento extremo. Acho que é um traço, uma característica da minha personalidade que ganhou outros ares. A nossa história sempre nos dá uma bússola para onde vamos nos encaminhar profissionalmente.

Por que você decidiu cursar Serviço Social?

A minha mãe trabalhava na área de habitação e, sempre que havia enchentes, atuava com ações sociais, acolhendo pessoas que perdiam suas casas, organizando doações de cestas básicas e roupas. Ela também tinha uma atuação como líder de jovens na igreja, o que a colocava sempre em contato com a escuta e ajuda a pessoas, e eu cresci me identificando com aquilo.

Vi no Serviço Social uma área próxima a essa realidade. Cheguei a cogitar cursar Psicologia, mas, quando conheci a saúde mental, entendi que poderia trabalhar essa aproximação com as questões do sofrimento psicossocial por outro olhar, por meio do Serviço Social.

Como foi o início da sua trajetória profissional?

Sempre fui capturada pelas temáticas que envolviam o sofrimento humano. Durante a graduação, me impactavam e me instigavam muito as questões relacionadas à violência contra crianças e adolescentes, ao abuso sexual e às violências física e psicológica. Mas, por obra do destino, nunca consegui trabalhar diretamente nessa área.

Quando me formei, passei a atuar no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (CAPS AD) e me apaixonei pela saúde mental. Acho muito fascinante nosso cérebro e toda a engenharia social envolvida em seu desenvolvimento.

Hoje, olho para tudo isso sob a perspectiva da determinação social do sofrimento, colocando outras óticas em cena, como classe, cor e raça, orientação sexual, espiritualidade e condição socioeconômica, por exemplo.

Em que momento você passou a trabalhar com prevenção do suicídio?

Apesar de atuar na saúde mental, eu não tinha grande aproximação com a temática do suicídio profissionalmente, embora, pelo histórico da minha cidade, tenha vivenciado muitas perdas de pessoas conhecidas.

Tive um estalo a partir de uma tentativa de suicídio da minha mãe e uma virada de chave que me levou a me aproximar da temática de forma mais profunda como profissional, especialmente após a minha própria tentativa de suicídio, há dez anos.

Levei muito tempo para falar publicamente sobre isso. Acho que, no início, eu tinha muita dificuldade em lidar com o fato de ser uma profissional da saúde mental que colapsou a ponto de tentar se matar. Tive muita dificuldade de aceitar isso naquela época, e trabalhar essa questão no processo terapêutico foi fundamental para a criação do projeto Sobre Suicídio.

O que mudou desde então?

Este ano, estou completando quase quatro décadas de vida, mas também dez anos dessa “segunda chance”, dessa tentativa de suicídio que virou essa chave e me inquietou a ponto de eu sentir uma intensa necessidade de entender o que aconteceu.

Meu trabalho, minha aproximação com a temática e a escrita do livro sobre o suicídio foram, inicialmente, uma proposta terapêutica. Esse diário terapêutico virou uma pesquisa de doutorado, que virou um livro, que virou um projeto e que já está com o segundo livro em produção.

Como é o projeto Sobre Suicídio?

O projeto está completando seis anos de existência neste ano. “Sobre Suicídio” é uma metáfora que significa “sobre o que realmente precisa morrer (que não é o indivíduo)”. Temos uma equipe multiprofissional que atua no acompanhamento de pessoas após uma crise, que não têm condições de custear acompanhamento. Também atuamos na capacitação de profissionais das redes de atendimento, principalmente no interior do Nordeste.

É grande o número de profissionais que me procuram quando falo sobre minha história com o suicídio; sempre me faz pensar quantas pessoas são atravessadas por isso em suas próprias histórias ou na história de alguém próximo, que ainda têm tabus de falar sobre o tema, mas quando houve essa história sente uma espécie de liberdade em falar de si também.

Qual é o maior desafio, na sua opinião, para trabalhar a prevenção do suicídio no Brasil e, em especial, na região Nordeste?

O próprio entendimento do que é o suicídio. Ainda há muito a percorrer nessa ultrapassagem de uma visão limitada ao olhar biomédico, de um cérebro que adoece como se estivesse desconectado do seu corpo social, físico, espiritual.

Acho que esse é um desafio, porque existe um senso comum entre pessoas que não aprofundam essa discussão e que, por isso, acreditam que essa é uma área exclusiva da Psicologia e da Psiquiatria.

Então, ampliar esse olhar, sem desconsiderar os avanços da perspectiva biomédica, mas incorporando outras áreas e pautas à discussão e construir esse mosaico da complexidade humana que produz o sofrimento extremo é, para mim, o maior desafio que ainda temos.

Como você conheceu a Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS)?

Conheci a ABEPS em 2018, quando estava fazendo doutorado no Rio de Janeiro e fui a São Paulo para participar de um evento sobre prevenção do suicídio.

A proposta da ABEPS de reunir diversas áreas do conhecimento e pessoas dos mais diferentes locais do Brasil tem a potência não apenas de trazer respostas para questões importantes, mas também de permitir o surgimento de novas perguntas.

Fazer parte da ABEPS fortalece sua atuação profissional?

Os espaços coletivos nos ajudam a lembrar que, sozinhos, não fazemos nada. Posso até realizar algo individualmente, mas, quando estou em uma associação que tem um grupo não apenas discutindo, mas também produzindo livros e promovendo eventos, percebo o quanto podemos nos estimular e nos inspirar mutuamente.

Os congressos da ABEPS sempre foram disparadores de ideias para mim. Foram experiências inquietantes. Lembro que a primeira vez que pensei sobre espiritualidade e suicídio foi em um congresso da ABEPS, e hoje esse é um dos principais temas do nosso projeto e da minha área de pesquisa.

Quando deixamos de participar desses espaços, perdemos muito. Ficamos fechados na nossa realidade, enquanto existem inúmeras outras acontecendo ao mesmo tempo. Precisamos estar nesses ambientes, com pessoas de diferentes formações, geografias, experiências e perspectivas, para provocar novas reflexões e renovar nossas ideias.

Você é uma das palestrantes do VI Congresso Brasileiro de Prevenção do Suicídio, em agosto, em Petrópolis (RJ). Que discussão levará para esse encontro?

Vou falar sobre determinação social do suicídio, os desafios dos territórios, as interseccionalidades que atravessam esse sofrimento psicossocial, que trazem novos desafios para o nosso trabalho (ou velhos desafios repaginados), como os vícios em jogos e o impacto das redes sociais na saúde mental, entre outros aspectos.

Não posso adiantar muita coisa, mas posso dizer que a ideia é ferver os neurônios dos participantes! Espero vocês para construirmos conhecimento juntos, que é justamente o que queremos fazer no Congresso.

O que você planeja para a sua jornada profissional nos próximos anos?

Espero continuar ajudando pessoas, as Fernandas que estão por aí e que têm dificuldade de falar sobre a própria dor. Existem muitas famílias como a minha, que precisam de ajuda para aprender a falar sobre seu sofrimento.

Eu vejo esse fortalecimento do suporte social como uma espécie de barricada de proteção, ainda que seja para reduzir danos, já que não podemos evitar que alguém sofra ao longo da vida. Às vezes, inclusive, o sofrimento vem para fazer brotar uma força que nem sabíamos que tínhamos. Foi o meu caso. Eu não imaginava que sobreviveria àquele caos há uma década, mas descobri e desenvolvi forças e estratégias vitais para seguir a vida.

Costumo dizer que não há problema em chegar a um ponto em que você olha para a vida que construiu e pensa: “não faz sentido continuar vivendo essa vida”. Tudo bem. Essa não é a única vida possível para mim. Posso desenhar outra. Posso e devo construir uma nova vida que faça sentido para quem sou agora.

É isso que tenho feito há dez anos. Então, espero conseguir ser esse lembrete ambulante não apenas de que há esperança, mas de que existem outras vidas possíveis.

Acompanhe Fernanda Luma no Instagram: @fernandaluma_sm

Acompanhe o IPPES no Instagram: @ippesbrasil

Assessoria de Comunicação da ABEPS

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